Todos anseiam ser felizes. Ser feliz é o desejo mais profundo do coração humano. Por isso, na passagem do ano desejamos um Feliz Ano Novo uns aos outros. Quando alguém casa, desejamos felicidades para o futuro do casal. Alguém que se forma nos estudos também recebe os votos de felicidades para sua vida profissional.
Existem muitas coisas que "trazem felicidade" e que podem ter as mais diferentes formas: para o cavaleiro a felicidade deste mundo está no lombo de um cavalo. Se alguém escapou ileso de um acidente, costumamos dizer que ele "teve a felicidade de não se ferir". Quantos buscam sua felicidade no jogo, na loteria ou no esporte? Outros tentam alcançar a felicidade por meios artificiais. Recentemente lemos em uma revista:
A ânsia pela felicidade e por emoções fortes leva milhões de jovens a estenderem suas mãos para a droga Ecstasy. Mas depois da euforia vem a ressaca – física e emocional... A ânsia por felicidade, por sentimentos intensos e o contato com outras pessoas leva muitos jovens a consumirem a droga regularmente...
A busca da felicidade e da alegria de viver mostra com extrema clareza que o ser humano de modo geral é infeliz. Até as pessoas que parecem ter alcançado tudo o que este mundo pode oferecer em brilho e glória, muitas vezes dão provas de sua infelicidade. O mundo da música e do cinema fala de felicidade, amor e alegria, mas a vida de muitos artistas prova que eles próprios são tudo menos felizes. Todos falam de felicidade, mas tão poucos são felizes.
Onde reside a causa da infelicidade?
Sem Deus, seu Criador, o homem não consegue ser realmente feliz. Enquanto tentar viver longe de Deus, enquanto se esconder de Deus e tentar viver sua vida como se Deus não existisse, ele não conseguirá ser feliz de verdade. Lemos em Judas 16a: "Esses homens são exploradores constantes, eternos insatisfeitos..." (A Bíblia Viva). A causa de toda infelicidade está no pecado! Lemos na Bíblia: "...o pecado traz vergonha e desonra para uma nação" (Pv 14.34b, A Bíblia Viva).
Quanta infelicidade se origina em um caráter desconfiado ou infiel. Quanto sofrimento vem do egoísmo, porque cada um quer viver só para si. Mas quantos são infelizes por serem negligenciados, preteridos, desconsiderados pelos outros. E quantas pessoas vivem infelizes porque carregam uma culpa tão grande, um fardo tão pesado que os faz sucumbir. Davi reconheceu certa vez no Salmo 38: "Pois já se elevam acima da minha cabeça as minhas iniqüidades; como fardos pesados, excedem as minhas forças. Sinto-me encurvado e sobremodo abatido, ando de luto o dia todo. Estou aflito e mui quebrantado; dou gemidos por efeito do desassossego do meu coração. Bate-me excitado o coração, faltam-me as forças" (vv. 4,6,8 e 10a).
Não viver em comunhão com Deus, não ter perdão, ter de conviver com constante sentimento de culpa significa ser infeliz. O ser humano procura preencher esse vácuo se atirando nas aventuras mais extravagantes. Tenta fazer carreira, planeja sua vida até nos mínimos detalhes e busca segurança de todas as formas. Mas em seu coração continua infeliz. O príncipe Talleyrand, cujo patrimônio foi avaliado em 30 milhões de francos, escreveu na véspera de sua morte:
Eis que 83 anos se passaram! Quanta preocupação! Quanta inimizade! Quantas complicações! E tudo sem outro resultado a não ser uma grande inquietação quanto ao passado e uma profunda sensação de desânimo e desespero em relação ao futuro.
O que o ser humano precisa para a verdadeira felicidade?
Ele precisa de um relacionamento com Deus através de Jesus Cristo. Por essa razão o salmista diz: "Tu és o meu Senhor; outro bem não possuo."(Sl 16.2) Chamar a Jesus Cristo de meu Senhor, nisso reside a felicidade permanente. Por isso o salmista continua confessando: "Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente" (v. 11).
O caminho para uma vida plena de felicidade e alegria se chama Jesus Cristo e consiste naquilo que Ele realizou na cruz por nós, que é o perdão dos pecados. Outra passagem da Bíblia diz: "Bem-aventurado aquele cuja iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniqüidade" (Sl 32.1-2a). Exatamente para isto Jesus veio a este mundo, morreu na cruz, foi sepultado e ressuscitou dos mortos, para nos colocar outra vez em comunhão com Deus pelo perdão dos pecados. Existe um hino que exprime isso de maneira muito acertada: "Vivo feliz pois sou de Jesus..."
Um hindu muito rico buscava a paz:
Ele se banhava no rio sagrado, fazia peregrinações estafantes – seu coração continuava sem paz. Até que um missionário lhe mostrou a cruz. Aí ele exultou: "Sorvi a mensagem como mel. Agora cheguei ao alvo de todo o meu anseio." (W. B. em "Spuren um Kreuz").
Viver em comunhão com Deus significa ser feliz. Jesus Cristo diz a todos os que crêem nEle: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração" (Jo 14.27b). O que Jesus conquistou na cruz para nós vai muito além daquilo que o mundo poderia nos oferecer. Ele nos trouxe a paz de Deus, perdão dos pecados e vida eterna. Quem vem a Ele e nEle crê recebe uma paz de espírito que não se acaba quando chegam dias difíceis, e que nos dá segurança para o futuro, porque o próprio Senhor é o nosso futuro.
A felicidade que Jesus nos dá não é um constante "andar nas nuvens", uma contínua sensação de bem-estar, livre de todos os desconfortos, mas é a certeza de estarmos abrigados nEle. Seguindo a Jesus, um filho de Deus não é poupado de todos os sofrimentos. Mas a felicidade não consiste exatamente em sabermos que, no meio de todo sofrimento, no meio de toda angústia estamos ancorados em Jesus Cristo? Que nEle temos uma esperança viva e que o sofrimento jamais é o fim, e sim, a vida com Jesus; vê-lO um dia e estar com Ele por toda a eternidade?! A Bíblia diz: "Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor de todas o livra" (Sl 34.19). Todo aquele que se tornou propriedade de Jesus não precisa sucumbir quando vem o sofrimento. Todo filho de Deus tem uma esperança viva que o sustém. E no final, todo verdadeiro cristão estará livre do todo sofrimento e verá ao Senhor Jesus assim como Ele é.
Por isso o Salmo 1.1 diz sobre a verdadeira felicidade: "Como é feliz o homem que não vai atrás da opinião das pessoas desligadas de Deus" (A Bíblia Viva). E o Salmo 34.9 nos anima: "Se você pertence ao Senhor, ame e obedeça a Ele; para quem faz isso nada falta" (A Bíblia Viva). (Norbert Lieth - http://www.apaz.com.br)
No Salmo 50.15 lemos a maravilhosa promessa de Deus: "...invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei, e tu me glorificarás."
Em uma fábrica de tecidos, onde funcionavam teares muito complicados, havia uma placa que dizia: "Se os fios se emaranharem, chame o supervisor". Recentemente aconteceu o seguinte: os fios do tear de uma operária muito dedicada e hábil se enrolaram. Imediatamente ela tentou desenredá-los, mas seus esforços somente tornavam maior a confusão. Finalmente, cansada e mal humorada, ela pediu ajuda ao supervisor.
"Você mesma já tentou separar os fios?", perguntou ele. – "Sim". – "Por que você não me chamou, conforme a norma?" – "Fiz o melhor que pude", respondeu ela. – "Lembre-se, ‘o melhor' em tal caso é me chamar!"
Quantas pessoas neste mundo se assemelham a essa mulher! Elas são honestas, corajosas e trabalhadoras. Elas enfrentam a vida com determinação. Gostaríamos de resolver tudo sozinhos, dar conta dos problemas, pois não nos agrada pedir ajuda aos outros. Esforçamo-nos para encontrar a própria solução. Mas, todos os esforços são em vão. No final, ficamos totalmente desanimados.
Muitas vezes, as circunstâncias acabam se tornando tão difíceis que não conseguimos mais nos desvencilhar sozinhos dos problemas. Quantas vezes um médico já teve de dizer a um paciente: "Mas, porque você não veio antes?"
Quando alguém se encontra em tal situação, a única solução é ir ao Senhor Jesus e invocá-lO. Ele é a resposta a todos os nossos problemas e às muitas confusões provocadas pelo pecado. Sem Ele não podemos fazer nada – nem para nós mesmos, nem para outros. Jesus Cristo diz: "...o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora" (Jo 6.37).
A caverna de Adulão e a sua profundidade profética
"Davi retirou-se dali e se refugiou na caverna de Adulão; quando ouviram isso seus irmãos e toda a casa de seu pai, desceram ali para ter com ele. Ajuntaram-se a ele todos os homens que se achavam em aperto, e todo homem endividado, e todos os amargurados de espírito, e ele se fez chefe deles; e eram com ele uns quatrocentos homens. Dali passou Davi a Mispa de Moabe, e disse ao seu rei: Deixa estar meu pai e minha mãe convosco, até que eu saiba o que Deus há de fazer de mim. Trouxe-os perante o rei de Moabe, e com este moraram por todo o tempo em que Davi esteve neste lugar seguro. Porém o profeta Gade disse a Davi: Não fiques neste lugar seguro; vai, e entra na terra de Judá. Então Davi saiu e foi para o bosque de Herete" (1 Sm 22.1-5).
O Antigo Testamento é um livro que ilustra o Novo Testamento, pois as marcas da cruz perpassam profeticamente a Bíblia toda. Repetidas vezes nossa atenção é despertada pela presença desse fato que é o maior que aconteceu na História da Salvação e em toda a eternidade: a morte de Jesus na cruz do Calvário! E é nessa perspectiva que até na caverna de Adulão e nos fatos que ali se sucederam podemos ver uma ilustração, um exemplo daquilo que o Davi celestial, que é Jesus Cristo, realizou na cruz.
Adulão, lugar da justiça
A palavra Adulão tem dois significados: 1. justiça do povo; 2. refúgio, esconderijo. Essas não são duas maravilhosas alusões à cruz do Calvário e à futura história de Israel? Será feita justiça a Israel, e isso no dia da Grande Tribulação quando o povo judeu se refugiará no Senhor e quando seus olhos virem Aquele a quem haviam rejeitado. A salvação de Israel passa pelo Calvário (Adulão)!
Mas também a nós, que cremos em Jesus Cristo, foi concedida ali a justiça que tem validade diante de Deus. Fomos justificados pelo sangue do Cordeiro (Rm 3.25-26). E na cruz igualmente encontramos refúgio. "O Deus eterno é a tua habitação" (Dt 33.27).
Adulão, lugar de significado profético
"Davi retirou-se dali e se refugiou na caverna de Adulão; quando ouviram isso seus irmãos e toda a casa de seu pai, desceram ali para ter com ele" (1 Sm 22.1). Davi, que no passado nem havia sido valorizado por sua família agora é procurado por ela. Seus irmãos e parentes fogem para ficar junto dele na caverna e de fato acham refúgio em sua companhia.
Séculos depois isso se realizou igualmente na vida de Jesus. Primeiramente seus próprios irmãos não creram nEle (Jo 7.5), assim como os irmãos de Davi não creram em Davi e até o repreenderam. Posteriormente, os irmãos de Jesus passaram a crer nEle (At 1.14) e encontraram refúgio interior em Jesus, como, por exemplo, Tiago, que escreveu a Epístola de Tiago do Novo Testamento.
Isso tem teor profético: os irmãos de Jesus são o povo de Israel. O povo como um todo até hoje ainda não crê nEle. Mas virá o dia em que todo o remanescente de Israel buscará e encontrará refúgio em Jesus (Rm 11.25b-26).
Em Miquéias 1.15, Adulão é mencionado em conexão com a futura redenção de Israel: "...chegará até Adulão a glória de Israel." E em 1 Samuel 22.3-5 lemos: "Dali passou Davi a Mispa de Moabe, e disse ao seu rei: Deixa estar meu pai e minha mãe convosco, até que eu saiba o que Deus há de fazer de mim. Trouxe-os perante o rei de Moabe, e com este moraram por todo o tempo em que Davi esteve neste lugar seguro. Porém o profeta Gade disse a Davi: Não fiques neste lugar seguro; vai, e entra na terra de Judá. Então Davi saiu e foi para o bosque de Herete." Assim como os pais de Davi encontraram refúgio temporário em Moabe, assim, segundo a minha opinião, o remanescente de Israel buscará e achará refúgio em Moabe, ou seja, na Jordânia, durante o tempo da Grande Tribulação quando o anticristo tentará exterminar o povo de Israel. Mas no final o restante de Israel vai encontrar refúgio na "caverna de Adulão", ou seja, no Calvário. Os que restarem do povo de Israel irão se dirigir Àquele que já há 2.000 anos atrás realizou a salvação para todas as pessoas na cruz do Calvário (comp. Zc 14.4-5,8-11).
Adulão, lugar de profundidade insondável
A caverna de Adulão é descrita assim: "É um sistema de corredores sem fim e passagens transversais que ainda não foi explorado por completo." Da mesma maneira jamais conseguiremos perscrutar toda a profundidade e abrangência da cruz. A Páscoa sempre continuará sendo para nós de uma grandeza imensurável. Pesquisamos e nos aprofundamos no assunto e ficamos admirados do que Jesus fez na cruz – e continuam a surgir novos mistérios à nossa frente. Fazemos cada vez mais novas descobertas, mas jamais chegaremos ao seu fim. Pessoa nenhuma pode dizer que já conseguiu explorar essa "Adulão" por completo, pois ela é uma fonte inescrutável de riquezas.
Muitas vezes as preciosidades se encontram, por assim dizer, ocultas em uma caverna. J. Oswald Chambers escreveu certa vez:
Os mais inteligentes pensadores de todos os tempos tentaram entender o significado da morte de Jesus na cruz. Mas ninguém jamais conseguiu chegar à sua profundidade completa. Eles desistiram, como fez Paulo exclamando: "" profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!" (Rm 11.33).
Temos algo semelhante escrito em Efésios 1.19: "...e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder." Ou pensemos em Efésios 3.18-19: "a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo (a cruz), que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus."
Adulão, lugar de humilhação
A caverna de Adulão, na qual Davi ficava e onde muitos se escondiam, era um lugar comum, sem nada de especial na sua aparência. Uma caverna não é um lugar agradável. Em geral as cavernas são lugares solitários, escuros e frios, um lugar para sujeira e lixo de todo tipo. De qualquer forma, uma caverna não é lugar digno para um rei, pois nem de longe pode ser comparada com um luxuoso castelo. Se Davi estivesse morando dentro de um majestoso castelo, certamente muito mais pessoas teriam vindo para ficar com ele. Mas até essa caverna só vinham aqueles que realmente precisavam dele.
Davi já havia sido ungido como futuro rei pelo profeta Samuel (1 Sm 16.13), mas estava sendo perseguido e oprimido tão duramente por Saul, rei em exercício em Israel, que se viu obrigado a fugir para uma caverna. Davi foi obrigado a isso pelas circunstâncias, mas o Filho de Deus o fez de livre e espontânea vontade. Pensamos no Senhor Jesus que, mesmo sendo semelhante a Deus, esvaziou-se a Si mesmo, assumiu a forma de servo e foi fiel até à morte, até à morte na cruz (Fp 2.6-8).
Com Davi na caverna de Adulão somos lembrados do Salmo 22 onde é descrito o Salvador sofredor: "Contra mim abrem as bocas, como faz o leão que despedaça e ruge" (v. 13). Jesus – sendo entregue à cruz – se encontrava literalmente na cova dos leões!
Adulão, lugar do rei verdadeiro
Quem é que poderia crer ou imaginar que naquela caverna se encontrava o homem que havia sido escolhido para reinar sobre Israel, homem em quem um dia muitos encontrariam ajuda? Mesmo que Davi tenha começado de maneira tão humilde – esse era o caminho de Deus para ele –, mesmo assim ele era o ungido, o novo rei de Israel. E apesar de não ter sido reconhecido como soberano quando se encontrava nessa situação, ele não deixou de sê-lo.
Vejam como Jesus foi desprezado, cuspido, torturado e escarnecido quando se encontrava dependurado na cruz! Mas mesmo assim Ele continua sendo o homem da salvação, o verdadeiro Rei e o único refúgio para uma humanidade perdida. Pedro testemunhou o seguinte aos fariseus incrédulos: "E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos" (At 4.12). Jesus é o verdadeiro filho de Davi. E Ele é o verdadeiro soberano e senhor do céu e da terra e Rei dos Reis, mesmo que na cruz não tenha sido reconhecido!
Adulão, lugar de refúgio
"Ajuntaram-se a ele todos os homens que se achavam em aperto, e todo homem endividado, e todos os amargurados de espírito, e ele se fez chefe deles; e eram com ele uns quatrocentos homens" (1 Sm 22.2). Que tipo de pessoas vieram a Davi na caverna? Eram pessoas que provavelmente receberam um sorriso condescendente e cheio de pena nas ruas e castelos. Eram criaturas miseráveis, pessoas em angústia, pessoas carregadas de culpa e com um coração atormentado. Mas Davi estava a seu lado! Em sua caverna encontraram refúgio.
Mas quem são os que encontram refúgio na cruz do Calvário?
Pessoas em aperto
Pessoas que não sabem o que fazer consigo mesmas, que chegaram aos seus limites e que perderam o chão firme debaixo de seus pés. E até hoje todos os que se encontram cheios de problemas (logicamente também os que já aceitaram a Jesus como seu Senhor e Salvador) podem ir a Jesus em busca de refúgio e paz na obra consumada do Senhor na cruz do Calvário sempre que precisarem. Podemos ter a certeza de que Jesus é maior que todo e qualquer poder que queira nos oprimir.
Pessoas endividadas
Pessoas que estão cônscias de sua culpa e sabem o quão profundo é o abismo do pecado e que estão convictas do quanto são condenáveis diante do Deus vivo, são essas pessoas que correm em direção a Jesus. Toda e qualquer pessoa que sabe da maldade que existe em seu coração consegue refúgio na "caverna de Adulão", isto é, na cruz do Calvário. Nessa "caverna", a pessoa encontra perdão dos pecados e um Deus misericordioso. Mas para todos os que são cristãos renascidos é válido o que segue: "Filhinhos meus, estas cousas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro" (1 Jo 2.1-2).
Pessoas amarguradas de espírito
Quando as sombras da depressão ou as trevas da tentação angustiam a nossa alma, encontramos refúgio, salvação, consolo e paz em Jesus. Como as pessoas devem ter suspirado aliviadas quando entravam na caverna! O Salmo 5.11 fala: "Mas regozigem-se todos os que confiam em ti; folguem de júbilo para sempre, porque tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome." Em Jesus você está seguro!
Em lugar algum estamos mais abrigados e seguros do que na cruz do Calvário, "...porque ele (Jesus Cristo) é a nossa paz" (Ef 2.14). Toda vez que nos humilharmos diante dEle em arrependimento sincero e confessarmos a Ele os nossos pecados poderemos respirar aliviados. Mas será que tomamos tempo suficiente para buscarmos o ungido rei na "caverna de Adulão" – para termos comunhão com o nosso Davi celestial?
Adulão, lugar da troca de liderança
Lemos em 1 Samuel 22.2: "Ajuntaram-se a ele todos os homens que se achavam em aperto, e todo homem endividado, e todos os amargurados de espírito, e ele se fez chefe deles; e eram com ele uns quatrocentos homens." Simbolicamente podemos deduzir o seguinte:
Os homens se ajuntaram a Davi
Jesus voluntariamente trilhou o caminho da humilhação, e, igualmente, todos aqueles que querem seguir a Jesus têm de se despojar de todo orgulho e têm de cair de joelhos diante do Senhor, se humilhando na Sua presença. Isso os irmãos de Jesus (Israel) farão, e essa é uma condição imprescindível para todo aquele que procura a salvação. Mas aquele que quiser ser o rei, que quiser continuar a mandar, como o rei Herodes no tempo de Jesus – a essa pessoa o caminho ao Calvário estará bloqueado.
Os homens se sujeitaram a Davi
A partir do momento em que os homens entraram na caverna de Adulão, Davi passou a ser seu chefe. Quem se refugia com seus pecados em Jesus experimenta o perdão. E perdão recebido aprofunda o amor a Ele e conduz à submissão voluntária ao Senhor e Seu domínio em nossas vidas.
Os homens mudaram de reino
Se pudéssemos perguntar àqueles homens de onde eles vinham, certamente teriam respondido: "Viemos do reino de Saul". Até nisso Saul é um símbolo do reino deste mundo, já que havia sido exaltado por Deus e instituído por Deus para ser o primeiro rei de Israel. Mas, por desobediência, Saul se desligou de Deus. Por isso, Deus o rejeitou, e, depois disso, Saul reinava em seus domínios, mas em oposição a Deus. E assim foi com Lúcifer, a "estrela da manhã" que se rebelou contra Deus e perdeu sua vocação. A maioria das pessoas se encontra no reino de Satanás; são poucos os que fogem e se refugiam no Davi celestial.
Saul também é uma ilustração da natureza pecaminosa do homem. Ele foi um rei segundo o coração humano. Davi foi diferente, ele era um homem segundo o coração de Deus – e é uma ilustração da vida espiritual. Se poderíamos continuar perguntando àqueles homens: "Aonde vocês vão?" eles teriam respondido: "Estamos saindo do reino de Saul e vamos ao reino de Davi." Quem se achegou a Jesus realizou uma mudança de posição em sua vida e se demitiu do antigo padrão que o escravizava. Essa pessoa deu a Jesus Cristo a primazia em sua vida.
As pessoas daquela época tomaram certas atitudes para chegarem a Davi. Elas foram até sua caverna, que era algo humilhante, e se uniram com Davi. E quem deseja hoje se refugiar em Jesus? Em sentido neotestamentário isso significa entregar-se a si mesmo: "Ou, porventura, ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida" (Rm 6.3-4).
Cada um desses homens estava bem consciente de sua culpa e de sua grande angústia, e cada um deles provavelmente pensava: "Se existe alguém que pode me ajudar, essa pessoa só pode ser Davi." Por isso esses homens se puseram a caminho e se dirigiram à caverna de Adulão. Lá, junto de Davi, encontraram descanso e passaram a fazer parte de seu reino. Querido amigo, peregrino cansado da longa jornada, você também tem um descanso maravilhoso a lhe esperar nas feridas do Cordeiro de Deus que morreu por você na cruz do Calvário: "Venham a Mim e Eu lhes darei descanso – todos vocês que trabalham tanto debaixo de um jugo pesado. Levem o meu jugo – porque ele se ajusta perfeitamente – e deixem que Eu lhes ensine; porque Eu sou manso e humilde, e vocês acharão descanso para suas almas; pois só Eu faço vocês carregarem cargas leves" (Mt 11.28-29, A Bíblia Viva).
Norbert Lieth
Publicado anteriormente na revista Chamada da Meia-Noite, outubro de 1997
"Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem" (Heb. 11:1)
O homem está parado à beira de um abismo, as costas premidas contra o paredão do túnel de onde saiu. No outro lado do abismo, ele vê a estrada que deve trilhar para chegar ao cobiçado tesouro. Pelas indicações do mapa, sabe que deve dar o passo da fé para transpor a salvo o abismo. Ele suspira fundo, fecha os olhos, murmura a definição de fé acima, e estende o pé sobre... o nada. Criando coragem, ele se inclina de leve e apoia o peso sobre aquele pé. Toda a platéia (é um filme) prende a respiração. Naquele exato momento, uma ponte se estende sob os pés do aventureiro e ele a atravessa lépido e feliz até seu destino.
Sempre pensei naquele primeiro passo como a prova da fé - pisar o invisível, apostar a vida em algo que não vejo com os olhos naturais mas em que deposito toda a minha confiança. Só que, na caminhada da fé, nenhuma ponte sólida e visível se estende sob meus pés até o outro lado. Meus passos são sustentados, mas um de cada vez.
Ah, quantas vezes olho à minha frente e me apavoro porque nada vejo de concreto. Quero ver para crer e não há nada visível. Posso, entretanto, volver os olhos para trás e constatar a realidade concreta da ponte que já atravessei. Vejo os marcos sólidos que a sustentam e sinto-me encorajada a dar o próximo passo...ainda que a ponte continue invisível sob meus pés.
Se eu não crer naquilo que não vejo, não poderei trilhar o caminho da fé, que leva à vida sobrenatural, "visto que andamos por fé, e não pelo que vemos" (2 Cor. 5:7)
Catherine era jovem, casada havia pouco com um pastor famoso em todo o país, mãe de um lindo garotinho, quando foi acometida pela tuberculose, moléstia praticamente incurável na época.
Sustentada por uma fé inabalável, apoiada pelo marido amoroso e dedicado, ela passou muito tempo confinada ao quarto, sempre de cama. Seu filho passou de bebê a garoto levado da breca sob a supervisão de outras pessoas que cuidaram da casa e da família durante aqueles anos sombrios. Sua prece por cura era o primeiro pensamento que lhe vinha à mente cada manhã e o que a embalava ao adormecer cada noite. A cada seis meses, fazia exames que determinariam se estava ou não curada. A cada seis meses, a esperança com que ia fazer os exames era derrubada pelo resultado. Continuava tuberculosa.
Foi uma época de profundas indagações espirituais. Volta e meia, ela perguntava: “Senhor, o que desejas me ensinar? Sei que és poderoso, que podes me curar. Se não me curaste ainda, tens algum propósito nesta doença. Então, por favor, ensina-me a ver esta situação através da tua perspectiva!”
Durante os seis meses de repouso e espera, ela se aprofundava no estudo da Palavra e na comunhão com seu Deus, ansiosa por aprender logo o que ele queria lhe ensinar. Com isso, foi descobrindo verdades maravilhosas no que ela veio a chamar de Escola dos Verdes Pastos. Quando vinha a hora dos exames médicos, ela, confiante de já haver aprendido o que Deus queria que aprendesse, esperava a “colação de grau” que viria depois de “ter passado” nos exames. Quando novamente “repetia”, pensava: “Ah, então não era essa a lição que Deus queria me ensinar.” E voltava para a cama e para a Bíblia.
Dois longos anos se passaram nessa agonia de espera. Ela se sentia totalmente inútil. Não podia cuidar do filho, era apenas um estorvo na vida e no ministério do marido, nada fazia além de ficar naquela cama e tentar entender o que Deus queria de sua vida. Após os resultados ainda positivos dos últimos exames, aquela moça, no limite de sua fé, entendeu que talvez o que estava em jogo não era o que Deus queria lhe ensinar, mas, sim, sua própria vida. Desistir da cura? Como poderia fazer isso? Não veria o filho crescer? Não envelheceria junto com o homem a quem tanto amava? Era isso o que Deus queria?
A luta foi grande, mas, afinal, o coração sangrando, ela entregou seu desejo de cura e restauração nas mãos de Deus. Ele a consolou de uma forma maravilhosa. O exame seguinte foi feito, mas ela estava tranquila quanto ao resultado. Qual não foi sua surpresa quando a resposta foi negativa. Estava curada! Deus lhe havia devolvido a vida que ela Lhe entregara! Catherine Marshall viveu muitos anos para ser uma escritora famosa, cujos livros inspiradores ensinaram a milhões de pessoas no mundo todo as lições que ela aprendeu na escola do seu Pastor!
Você já se viu numa situação semelhante de desalento, de impotência diante de circunstâncias adversas? Talvez esteja enfrentando um desapontamento ou uma dor profunda neste exato momento. O que Deus está querendo de você quando, apesar de ter poder para isso, não lhe concede aquilo por que seu coração tanto anseia, a ponto de parecer que, ao aceitar o não divino, está renunciando à própria vida?
Já passei por situações como essas. Foram sonhos bons, coisas preciosas a que tive de renunciar quando orei para que, antes da minha vontade, a do Senhor fosse feita. Muitas vezes, “repeti” no exame, e concluí: “Ah, então não era isso que o Senhor estava querendo me ensinar!” Só que, a cada “ah, então”, a cada nova renúncia, a dor ia ficando mais profunda, o desespero, maior. E com mais força ainda eu me agarrava àquilo que parecia prestes a ser-me tirado. Somente quando de fato e de coração entregava aquele desejo nas mãos de Deus sentia sua paz me inundar, mesmo que nada tivesse mudado nas circunstâncias.
Às vezes, depois dessa entrega, Deus me disse sim, dando muito mais do que eu jamais imaginara possível. Às vezes, ele tomou para si aquilo que entreguei, mas cuidou carinhosamente das minhas necessidades, enchendo-me da certeza da sua bondade e misericórdia mesmo quando a perda me foi muito dolorosa.
Numa ocasião em que eu estava devastada por um sofrimento maior do que eu jamais imaginara ter de passar um dia, o “anjo” que o Senhor enviou para me consolar, sem saber do que se tratava, me disse que havia sido tocado pelo próprio Senhor a orar por mim aquela semana. E concluiu: “Dona Wanda, pode estar certa de que a senhora não está esquecida diante do trono de Deus. Mas o Senhor só usar pessoas que foram quebrantadas.”
Hoje sei por experiência própria que Deus usa aquilo que permite em minha vida para me levar mais perto de si. Cada “ah, então” era um ajuste que eu tinha de fazer no meu rumo para chegar mais perto da Sua vontade. O número de vezes em que tive de fazer esse ajuste me mostrou quanto eu estava distante do lugar onde deveria estar. Mesmo sonhos e desejos bons podem ocupar o lugar errado em minha vida se eu os desejar mais do que desejo a boa e perfeita vontade de Deus.
Na Escola dos Verdes Pastos tenho aprendido que o Senhor sabe a prova que tem de me dar para revelar coisas que talvez estejam ocupando o Seu lugar em meu coração. É por isso que o apóstolo Tiago nos exorta: “Meus irmãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. . .Eis que temos por felizes aos que perseveraram firmes. . . porque o Senhor é cheio de terna misericórdia, e compassivo” (1:2-3; 5:11).
"Atentarei sabiamente ao caminho da perfeição...Portas a dentro, em minha casa, terei coração sincero" (Salmo 101:2).
As portas fechadas que resguardam a intimidade de muitos lares vêm sendo escancaradas para revelar cenas deprimentes de abuso sexual, físico e emocional. Ninguém pode avaliar ao certo a extensão das mazelas que infestam e destroem o que deveria ser um lugar de segurança, aceitação e amor incondicionais.
Mesmo nos lares mais bem estruturados, a intimidade cotidiana acaba revelando fatalmente as falhas das pessoas que ali convivem. Dentro de casa é que tiramos os disfarces, as máscaras e nos mostramos como realmente somos. Nada como a mágoa refletida nos olhos de uma pessoa querida a quem criticamos, a raiva de um filho que tratamos injustamente, a decepção de um cônjuge a cuja expectativa não correspondemos para nos mostrar sem disfarces as rachaduras da nossa pessoa.
Entretanto, nosso coração enganoso racionaliza nossas ações, justificando-as e defendendo atitudes que não teríamos para com estranhos, mas que temos para com aqueles a quem devemos amar e honrar antes de todos os outros.
É por isso que precisamos atentar ao caminho da perfeição, nos deixar repreender pelos preceitos de Deus (Salmo 19:11). Só então poderemos fazer um propósito sério de levar uma vida transparente não só diante daqueles que conosco convivem "portas a dentro" do nosso lar, mas também diante de Deus.
O testemunho dos que convivem conosco na intimidade do nosso lar é o reflexo mais fiel que temos da sinceridade do nosso coração.
"Ai daquele que acumula o que não é seu (até quando?), e daquele que a si mesmo se carrega de penhores" (Habacuque 2:6-7)
Sempre pensamos em penhores como dívidas de dinheiro. Entretanto, todo compromisso que assumimos passa também a ser um penhor. Muitos de nós vivemos tensos, irritados porque comprometemos o nosso tempo além das 24 horas por dia que Deus nos dá.
Eu estava vivendo assim quando certa manhã, ao ler a Palavra de Deus, acabei sendo dirigida ao livro de Habacuque. Na mensagem do profeta aos caldeus, ele apontou um dedo para mim quando começou falando de penhores. Essa era eu! Sobrecarregada de penhores! Não de dinheiro, mas de compromissos. Eu realmente havia penhorado mais tempo do que dispunha. A qualidade do meu serviço estava ficando aquém do que poderia ser. O versículo 7 deixou bem claro qual seria o meu fim, se eu persistisse nesse caminho: "Não se levantarão de repente os teus credores? . . . Tu lhes servirás de despojo." As próprias pessoas a quem eu buscava servir podiam, com todo o direito, vir a queixar-se por eu não corresponder às suas expectativas.
Jesus conhece as minhas forças e a minha capacidade e quando me pede que vá além delas, ele próprio supre as minhas deficiências. Se não está suprindo, então estou agindo por conta própria, e não a mandado dele. "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. . .porque. . . o meu fardo é leve" (Mat. 11:28-30). Se meu fardo está pesado, ou não é o que Deus tem para mim ou eu o estou carregando por minhas próprias forças.
"Tu ordenaste os teus mandamentos, para que os cumpríssemos à risca" (Salmo 119:4)
Certa vez presenciei uma cena que me chocou bastante. Eu visitava uma amiga, mãe de um garotinho de 4 anos. A casa deles ficava numa avenida larga e arborizada, pela qual fluía uma fila constante de veículos apressados. Enquanto conversávamos, o garoto passeava de triciclo pela calçada. De repente, o menino enveredou decidido para o leito da rua. De um salto, minha amiga estava ao lado dele, segurando o triciclo. Levando o filhinho para dentro, ela lhe aplicou umas palmadas dolorosas. Vendo meu olhar assustado, explicou: "Ele sabe que não pode nem pensar em sair da calçada. É perigoso demais. Tem de me obedecer à risca para seu próprio bem!"
O mundo em que vivemos, contaminado pelo pecado, é um lugar perigoso demais. Por isso, Deus nos deu mandamentos que deseja que cumpramos à risca. São mandamentos que muitas vezes contrariam nossos desejos naturais e parecem impor restrições irritantes e maldosas à nossa liberdade. Entretanto, são eles que nos levam pelo caminho da vida anti-natural. Somente quando os obedecemos "à risca" provamos o poder sobrenatural do nosso Deus.
É quando perdoamos aqueles a quem naturalmente deveríamos odiar, quando damos além do que naturalmente poderíamos dar, quando amamos alguém indigno do nosso amor que vemos e entendemos um pouco mais de quem Deus é e crescemos na confiança do seu amor e da sua sabedoria. Aprendemos de fato que, ao ordenar essas coisas, ele quer o nosso bem. "Andai em todo o caminho que eu vos ordeno, para que vos vá bem" (Jeremias 7:23).
"Se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também" (Salmo 139:8)
Poucas vezes eu me sentira tão impotente e desamparada em toda a minha vida. Quando cheguei em casa, vindo do hospital onde meu marido fora operado do coração aquela manhã, a seriedade do estado dele se abateu sobre mim. Entrar sozinha no nosso quarto, desfazer a mala, guardar as coisas dele. . .
Eu sabia que a cirurgia em si tinha sido um sucesso, mas também sabia que ele estaria na UTI, no "mais profundo abismo" da anestesia, por mais de 24 horas. Inconsciente, ele nem mesmo podia clamar pelo nome do Senhor. Então, clamei eu e reivindiquei para ele a verdade do Salmo 139.
Nosso pastor me telefonou para saber notícias e contei-lhe minha preocupação. Então ele, que já passou por muitas situações semelhantes, me relembrou Romanos 8:26-27: "Também o Espírito semelhantemente nos assiste em nossas fraquezas...o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis. . .porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos."
Tranquilizada, deixei a obra de intercessão nas melhores mãos possíveis e, exausta física e emocionalmente, fui dormir um sono reparador.
Na manhã seguinte, reli o Salmo 139 e o versículo 7 me chamou a atenção de uma maneira como nunca fizera antes. "Para onde me ausentarei do Teu Espírito?" Enquanto estivermos aqui neste mundo, o Espírito estará dentro de nós, intercedendo por nós, assegurando assim que nossas orações sejam respondidas segundo a vontade de Deus, ajustando os desejos do nosso coração aos do coração de Deus ao nos conduzir pelo caminho da santificação, sem a qual não veremos a Deus.
Muitos dos segredos da santidade nos são revelados nas páginas da Bíblia. De fato, um dos objetivos principais da Escritura é mostrar ao povo de Deus como levar uma vida que lhe seja digna e que lhe agrade. Porém um dos aspectos mais negligenciados na busca da santidade é a parte que compete à mente, conquanto o próprio Jesus tenha posto o assunto fora de qualquer dúvida quando prometeu: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. É mediante a sua verdade que Cristo nos liberta da escravidão do pecado. De que forma? Onde se encontra o poder libertador da verdade?
Para começarmos, precisamos ter um quadro bem claro do tipo de pessoa que Deus pretende que sejamos. Temos de conhecer a lei moral de Deus e os mandamentos. Como o expressou John Owen: “o bem que a mente não é capaz de descobrir, a vontade não pode escolher, nem as afeições podem se apegar”.. Portanto, “na Escritura o engano da mente comumente se apresenta como o princípio de todo pecado”.
O melhor exemplo disso pode-se encontrar na vida terrena do nosso Salvador. Por três vezes o diabo aproximou-se dele e o tentou no deserto da Judéia. Nas três vezes Ele reconheceu se má a sugestão que lhe fizera Satanás e contrária à vontade de Deus. Três vezes Ele se opôs à tentação com a palavra gegraptai: “está escrito”. Jesus não deu margem a qualquer discussão ou argumentação. A questão já estava decidida, logo de partida, em sua mente. Pois a Escritura estabelecera o que é certo. Este claro conhecimento bíblico da vontade de Deus é o segredo básico de uma vida reta.
Não basta sabermos o que deveríamos ser, entretanto. Temos de ir mais além, resolvendo, em nossas mentes, a alcançá-la. A batalha é quase sempre ganha na mente. É pela renovação de nossa mente que nosso caráter e comportamento se transformam. Assim é que, seguidamente, a Escritura nos exorta a uma disciplina mental nesse sentido. “Tudo o que é verdadeiro”, diz ela, “tudo o que respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”.
De novo: Se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.
De novo ainda: “Os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz”.
O autocontrole é, antes de tudo, o controle da mente. O que semeamos em nossas mentes, colhemos em nossas ações. “Ler É Viver” foi o lema de uma recente campanha publicitária. É um testemunho do fato de que a vida não consiste apenas em trabalhar, comer, dormir. A mente tem de ser também alimentada. E o tipo de comida que nossas mentes receberem determinará que tipo de pessoa seremos. Mentes sadias têm um apetite sadio. Temos de satisfazê-las com alimento saudável, e não com drogas e venenos intelectuais perigosos.
Há, entretanto, uma outra espécie de disciplina mental a que somos convocados no Novo Testamento. Temos que considerar não somente o que deveríamos ser, mas também o que, pela graça de Deus, já somos. Devemos constantemente nos lembrar do que Deus já fez por nós, e dizer a nós mesmos: “Deus uniu-me com Cristo em sua morte e ressurreição, e assim acabou com a minha velha vida e me deu uma vida completamente nova em Cristo. Adotou-me em sua família e me fez seu filho. Pôs em mim seu Espírito Santo, fazendo de meu corpo seu templo. Também tornou-se seu herdeiro e prometeu-me um destino eterno, consigo, no céu. Isto é o que Ele fez para mim e em mim. Isto é o que sou em Cristo”.
Paulo não se cansa de nos incitar a que deixemos nossas mentes pensar nessas coisas. “Quero que saibais”, ele escreve. “Porque não quero, irmãos, que ignoreis...”E cerca de dez vezes em suas cartas aos Romanos e Coríntios ele profere esta pergunta incrédula: “Não sabeis...” “Não sabeis que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus , fomos batizados na sua morte?” Não sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse mesmo a quem obedeceis sois servos...? “Não sabeis que sois santuários de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” “Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo?
A intenção do apóstolo nesta enxurrada de perguntas não é apenas fazer-nos sentir envergonhados por nossa ignorância. É antes fazer com que nos dizem respeito, as quais de fato nos são bem conhecidas; e que falemos entre nós sobre elas até o ponto em que se apoderem de nossas mentes e moldem o nosso caráter. Não se trata do otimismo de autoconfiança de Norman Vicent Peale, cujo método procura conseguir que façamos de conta que somos algo que não somos. O método de Paulo é nos lembrar do que realmente somos, porque assim nos fez Deus em Cristo.